A MISERICÓRDIA ESTÁ ACIMA DA JUSTIÇA
Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM
Por PASCOM . dia em Mensagem do Arcebispo
Publicado no Jornal O Maringá, 30.03.2025
A festa faz parte da harmonia humana. Todas as culturas cultivam um jeito próprio para celebrar as alegrias e vitórias. Toda comemoração é precedida de ações construídas superando os obstáculos, conquistando a vitória.
Estamos no período quaresmal. Nossa ocupação diária é a superação dos males que causam desânimo, tristeza e dor. A reflexão cheia de amor, impulsiona para o arrependimento de todos os pecados para entramos na festa da ressurreição de Jesus.
A alma humana, está relacionada com toda a natureza criada por Deus. Os exageros sobre o controle da natureza, adoece também drasticamente o corpo humano, contraindo doenças e depressões nas pessoas que perdem o sentido da vida. O exagero dos tóxicos lançado sobre a natureza, muitas vezes para o lucro desordenado de pequenas e grandes empresas, gera o egoísmo, o domínio sobre a natureza, obra de Deus. A lógica do lucro sobre o lucro destrói a paz na família humana.
Ao aprofundarmos a temática da Campanha da Fraternidade, “Fraternidade e Ecologia Integral”, com o lema: “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31), somos convocados para o perdão dos nossos pecados, restaurar a convivência humana, superar o pecado da divisão, do egoísmo, do intimismo, da fuga da responsabilidade e do juízo salutar. A entrega de Jesus nas mãos dos carrascos, não reagiu contra os malvados, e nem se intimidou diante de um Pilatos covarde que perdeu a oportunidade de fazer justiça diante do sinédrio, manchou a natureza do coração que é a sede da misericórdia.
A missão de Jesus é revelar a grandeza do amor de Deus sobre toda a natureza criada. Somos criaturas e convivemos na intimidade com a natureza que nos encanta, descansa, alegra os nossos olhos ao contemplar toda a obra criada.
A parábola do Pai misericordioso (Lc 15,1-3.11-32), é a figura necessária para silenciarmos neste tempo quaresmal e rever nossas atitudes perante o Pai e a postura da criatura em relação com o que “é bom”, que Deus criou. O personagem central do relato é a imagem do Pai. O filho mais novo é ingrato, insolente e obstinado; exige do pai muito mais do que tem direito. Ingrato, abandona a casa, o amor do pai, e delapida os bens da família. É uma imagem do egoísmo, do orgulho e da imaturidade total. No fim, cai em si, percebe o vazio e o sem sentido da vida, reúne toda a sua coragem e retorna, não por amor, mas pela dor da fome. O filho mais velho é o “certinho”, legalista e acomodado na casa do pai. Sua lógica é a justiça, e não a misericórdia. Ele acha que merece mais que o irmão e não aceita que o pai seja misericordioso. É a imagem dos fariseus e escribas que interpelaram Jesus: por cumprirem à risca as exigências da lei, desprezava os pecadores e achavam que essa devia ser também a lógica de Deus (cf. 4º Domingo da Quaresma).
A parábola do Pai misericordioso nos estimula a aprofundar a reflexão sobre os processos de conversão pessoal, familiar e social. Como é a natureza humana em seus aspectos de convivência e sustentação com a obra criada por Deus para o bem de todo o planeta terra?
Como agredimos a natureza com os excessos que machucam a pureza do ar, dos rios, das plantas, da vida humana e animal?
Seremos julgados no juízo final conforme a preservação da vida e pelo amor para com os nossos irmãos e irmãs. Muito mais pela misericórdia praticada do que a própria justiça.
O Pai misericordioso está pronto para nos acolher.
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