DOIS IRMÃOS E A CORAGEM DE DAR UMA VOZ NOVA À PALAVRA DE DEUS
Conheça a história de Cirilo e Metódio os padroeiros da Europa que levaram a Bíblia ao coração dos povos eslavos
Por PASCOM . dia em LITURGIA DAS CORES
Se você acompanha nossa série Liturgia das Cores, já percebeu que a Igreja é, antes de tudo, uma grande família. No último encontro, vimos a sintonia entre os gêmeos Bento e Escolástica. Hoje, o calendário litúrgico nos convida a sentar à mesa com outros dois irmãos que, embora não fossem gêmeos, dividiam a mesma alma missionária: Santos Cirilo e Metódio.
Neste 14 de feveiro, quinta semana do Tempo Comum, o altar se veste de branco. Essa cor não é apenas um detalhe estético; ela sinaliza a alegria, a pureza da fé e a vitória de quem deu a vida para que a Luz de Cristo brilhasse em terras distantes.
O administrador e o filósofo
Imagine a Tessalônica do século IX. Ali cresceram Miguel e Constantino. O mais velho, Miguel, tinha o perfil de quem resolve problemas: era um administrador nato, chegando a governar uma província bizantina. Mas o chamado do deserto falou mais alto, e ele trocou o palácio pelo mosteiro, assumindo o nome de Metódio.
Já o mais novo, Constantino (que mais tarde seria Cirilo), era o brilhantismo em pessoa. Estudou com os melhores mestres em Constantinopla, mergulhando na astronomia, retórica e música. Ele poderia ter sido um gigante da corte, mas preferiu ser um gigante do Evangelho.
O nascimento de um alfabeto
A grande aventura começou quando o Imperador Miguel III os enviou para a Grande Morávia (região da Europa Central). O desafio era colossal: como explicar a profundidade da Bíblia para um povo que não falava nem latim, nem grego?
Aqui entra a "ousadia evangélica" que os colocou no Missal Romano. Cirilo e Metódio perceberam que, para o Evangelho entrar no coração, ele precisava passar pelo ouvido na língua materna. Eles não apenas traduziram textos; eles criaram um alfabeto.
O alfabeto "glagolítico" (que evoluiu para o que hoje chamamos de cirílico) nasceu da ponta da pena desses santos para que as tribos eslavas pudessem ler: "No princípio era o Verbo". Eles anteciparam em mais de mil anos o que o Concílio Vaticano II consolidaria: a liturgia na língua do povo.
Por que eles são fundamentais para a Igreja?
A presença deles no Missal e a importância que possuem — a ponto de São João Paulo II tê-los proclamado Copadroeiros da Europa — deve-se a três pilares:
- A Inculturação: Eles provaram que a fé católica não anula as culturas locais, mas as eleva.
- A Unidade: Mesmo sendo bizantinos (do Oriente), fizeram questão de vir a Roma buscar a bênção do Papa Adriano II, mostrando que a Igreja é uma só, independentemente da língua.
- O Sacrifício: Sofreram perseguições e foram acusados de heresia por "ousarem" usar outra língua na Missa que não fosse o hebraico, o grego ou o latim. Metódio chegou a ser preso por dois anos por causa de sua fidelidade à missão.
Devoção
Cirilo faleceu em Roma, em 869, após vestir o hábito monástico. Metódio, ordenado bispo, voltou para os seus amados eslavos e lutou até o fim em 885. A maior "devoção" a eles é a própria cultura dos países do Leste Europeu; sem esses dois irmãos, a face da Europa Central e Oriental seria irreconhecível. Não se conhece milagres "fabulosos" de levitação ou curas instantâneas em vida, mas o maior milagre atribuído a eles é a conversão de nações inteiras através da educação e da palavra escrita.
A Herança de Fé
Hoje, ao olharmos para o branco das vestes litúrgicas, celebramos dois homens que não tiveram medo de gastar a vida entre pergaminhos, viagens cansativas e debates teológicos. Eles nos ensinam que o amor a Deus também se faz com o estudo e com a sensibilidade de ouvir o próximo.
Que a coragem desses "Apóstolos dos Eslavos" nos inspire a encontrar novas formas de levar a mesma e antiga mensagem de esperança a quem ainda não a compreende.
Oração
Deus Pai de bondade, iluminados pelo ideal missionário de São Cirilo e Metódio, sejamos também nós revestidos com a graça de levar aos homens e mulheres mais abandonados a mensagem de amor que brota do evangelho. Por Cristo nosso Senhor. Amém!
Excelente escolha! Como um bom pesquisador da história cristã, sei que não se pode separar a cultura (o alfabeto) da espiritualidade (a Palavra), pois ambas caminham juntas na missão desses dois gigantes.
Preparei esse material complementar para aprofundar ainda mais o seu conhecimento para a Paróquia.
1. Curiosidades: O Alfabeto que uniu o Céu e a Terra
O impacto da obra de Cirilo e Metódio ultrapassou os muros dos mosteiros e moldou a geopolítica e a cultura de quase metade do mundo moderno.
- A Terceira Língua da União Europeia: Com a entrada da Bulgária na UE em 2007, o cirílico tornou-se o terceiro alfabeto oficial do bloco, ao lado do latino e do grego. Bilhões de notas de Euro hoje carregam caracteres criados a partir da semente plantada por esses santos.
- Mais que Letras, Símbolos Teológicos: O alfabeto original (Glagolítico) foi desenhado com base em três formas sagradas: o Círculo (eternidade de Deus), o Triângulo (a Santíssima Trindade) e a Cruz (a Redenção). Aprender a ler era, literalmente, desenhar os mistérios da fé.
- A "Herança dos Discípulos": Embora chamemos de "Cirílico", São Cirilo criou primeiro o alfabeto Glagolítico. Foram seus discípulos, na Bulgária, que simplificaram os traços para o formato que conhecemos hoje, nomeando-o em homenagem ao mestre para imortalizar seu legado.
Presença no Espaço: Até hoje, astronautas de diversas nacionalidades que viajam nas naves russas Soyuz para a Estação Espacial Internacional precisam aprender o alfabeto cirílico para operar os sistemas. A língua da evangelização chegou às estrelas!
2. Leitura Espiritual: O Mistério da "Língua do Coração"
Baseado no espírito das cartas e defesas que São Metódio apresentou ao Papa e aos seus opositores, proponho esta breve meditação para o seu dia:
"Deus não faz acepção de pessoas nem de línguas. Quando os salmistas dizem 'Louvem ao Senhor todas as nações', eles não impõem um idioma, mas pedem um coração.
A missão de Metódio nos ensina que o Evangelho só é plenamente encarnado quando ele 'fala a nossa língua' — não apenas o idioma português, mas a língua das nossas dores, das nossas alegrias e da nossa cultura local. Onde quer que haja uma barreira para a Palavra de Deus, ali deve haver um missionário disposto a criar pontes, ainda que precise inventar um alfabeto novo para isso.
Reflexão: Em que 'idioma' você tem falado de Deus para as pessoas ao seu redor? É o idioma do julgamento e da norma fria, ou é o 'alfabeto do amor' que o outro consegue compreender?"
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