CINZAS NA FRONTE E ESPERANÇA NO PEITO PARA O CAMINHADA QUARESMAL
O roxo toma conta do altar e a Campanha da Fraternidade nos convoca a cuidar da morada dos irmãos
Por PASCOM . dia em LITURGIA DAS CORES
Quem caminha pelas ruas de Sarandi em fevereiro conhece bem o calor que faz o asfalto vibrar e a poeira levantar. É curioso pensar que, enquanto a natureza ao nosso redor brilha em cores vivas, a Igreja decide se vestir de Roxo. Mas não se engane: o roxo não é a cor da tristeza, é a cor do amadurecimento. É como a uva que precisa passar pelo tempo certo para virar vinho; é o convite para um retiro de quarenta dias onde o silêncio fala mais alto que o barulho do dia a dia.
Depois de semanas atravessando o verde esperança do Tempo Comum, o cenário da nossa Liturgia muda bruscamente. O silêncio ganha espaço, o "Aleluia" é guardado no relicário da memória e o altar se reveste de roxo. Nesta Quarta-feira de Cinzas, a Igreja nos convida a uma parada obrigatória. Não é um convite ao desânimo, mas a uma "faxina na alma" que começa com um punhado de cinzas sobre a cabeça. Como é linda a nossa Liturgia das Cores, não é mesmo?
Por que as Cinzas ganharam um lugar no Missal?
A Quarta-feira de Cinzas não é um feriado, mas um "dia de choque de realidade". A Igreja a colocou no Missal Romano porque precisávamos de um rito que nos lembrasse da nossa essência.
Na história da Igreja, as cinzas sempre foram o sinal de quem reconhece que errou e quer recomeçar. Ao recebermos aquela cruz de cinzas na testa, estamos dizendo: "Senhor, eu sei que sou passageiro como esse pó, mas quero que minha alma seja eterna". É o início dos 40 dias de Jesus no deserto, e nós, povo de Deus em Sarandi, entramos nesse deserto para sair dele renovados na Páscoa.
O uso das cinzas como sinal de arrependimento é milenar, vindo da tradição bíblica onde os profetas se cobriam de pó para pedir perdão a Deus. Na história da Igreja, esse rito se consolidou como o "portão de entrada" para o retiro de 40 dias.
A Quaresma imita os 40 dias de Jesus no deserto. Assim como a terra precisa ser revolvida e limpa para que as sementes da primavera brotem, o cristão usa a Quarta-feira de Cinzas para "arar" o coração através de três ferramentas essenciais:
- O Jejum: para dominar os instintos;
- A Esmola: para abrir as mãos ao irmão;
- A Oração: para reaprender a falar com o Pai.
A cor da introspecção e da realeza humilde
O roxo que veremos nas estolas e paramentos a partir de hoje não é uma cor de luto triste, mas de penitência e conversão. Na história da evangelização, o roxo sempre foi a cor da realeza. Ao usá-lo na Quaresma, a Igreja nos lembra que somos filhos do Rei, mas que nossa coroa, por enquanto, é feita de humildade. É a cor do crepúsculo, aquele momento de transição entre a luz e a sombra, onde somos convidados a olhar para dentro de nós mesmos e encontrar o que precisa de luz.
O Roxo da Liturgia e a Terra Roxa de Sarandi
Aqui no Sul, temos uma conexão especial com essa cor. Nossa famosa "terra roxa" (que na verdade é avermelhada) é o berço da nossa fertilidade. Na Liturgia, o roxo é o símbolo da penitência, da oração e da caridade. É a cor que nos prepara. Se o verde é o dia a dia, o roxo é o "tempo de faxina".
Em 2026, esse roxo ganha uma tonalidade ainda mais social e concreta. Ao cruzarmos a porta da igreja hoje, não estamos apenas iniciando a Quaresma, mas abrindo oficialmente a Campanha da Fraternidade.
Do triunfo das palmas à humildade do pó
Você já se perguntou de onde vêm as cinzas que o padre impõe em nossa fronte? Elas têm uma origem poética e profunda: são os ramos de oliveira ou palmas abençoados no Domingo de Ramos do ano passado.
Aquelas mesmas folhas que um dia foram agitadas em triunfo para saudar a entrada de Jesus em Jerusalém, agora, passadas pelo fogo, viraram pó. É uma imagem fortíssima da nossa própria vida: o que hoje é glória humana, amanhã pode ser pó. Quando ouvimos a frase "Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar", a Igreja não quer nos assustar, mas nos libertar da vaidade. Ela nos diz: "Não se apegue ao que passa, pois sua verdadeira morada é o Céu".
Fraternidade e Moradia: Ele veio morar entre nós
A Campanha da Fraternidade de 2026 traz um tema que toca o coração de qualquer morador de Sarandi: Fraternidade e Moradia. Com o lema inspirado em São João, "Ele veio morar entre nós" (Jo 1,14), a Igreja no Brasil nos convida a pensar na dignidade da casa.
O Ver: Olhar para as nossas ruas. Enquanto recebemos cinzas (resto de combustão), lembramos de tantos irmãos que vivem em moradias precárias, onde o teto parece tão frágil quanto o pó.
O Iluminar: Deus tem um endereço. O maior milagre da história foi Deus ter escolhido uma casa humana para nascer. Se Jesus teve um lar, todo ser humano deve ter o direito a um teto digno.
O Agir: A caridade que vira tijolo. A CF 2026 nos provoca a entender que a moradia não é uma mercadoria, mas um direito. Nossa penitência quaresmal deve se transformar em gestos que ajudem quem não tem onde reclinar a cabeça.
Oração da CF 2026
Deus, nosso Pai, em Jesus, vosso Filho, viestes morar entre nós e nos ensinastes o valor da dignidade humana. Nós vos agradecemos por todas as pessoas e grupos que se empenham em prol da moradia digna para todos. Dai-nos a graça da conversão, para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa, com terra, teto e trabalho para todos, a fim de, um dia, habitarmos convosco a casa do Céu. Amém!
Guia Prático: Sua primeira semana de Quaresma
Para você que quer levar a sério este tempo em nossa paróquia, aqui estão sete passos para a primeira semana:
- Quarta-feira (Cinzas): Jejum e abstinência de carne. Use o dinheiro que economizaria na refeição para uma oferta especial aos pobres da nossa cidade;
- Quinta-feira: Oração em família. Reze uma dezena do terço pedindo por todas as famílias de Sarandi que ainda não têm casa própria ou vivem em situações de risco;
- Sexta-feira: Abstinência de telas. Desligue as redes sociais por 3 horas e dedique esse tempo à leitura do Evangelho de São João, capítulo 1;
- Sábado: Gesto concreto. Separe roupas ou utensílios domésticos que você tem "sobrando" e doe para uma família que esteja começando uma vida nova;
- Domingo: Missa com foco na comunidade. Ao chegar na paróquia, observe quem é o irmão que você ainda não cumprimentou e ofereça um sorriso e uma palavra de acolhida;
- Segunda-feira: Jejum de reclamação. No trabalho ou em casa, tente passar o dia sem reclamar de nada, exercitando a gratidão pela "morada" que você já possui;
- Terça-feira: Estudo da CF 2026. Tire 15 minutos para ler um trecho do texto-base da Campanha e entender como você pode ajudar na questão da moradia na nossa região.
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No vídeo acima, você pode conferir uma reflexão profunda sobre o sentido das cinzas e como elas nos preparam para a jornada da Quaresma.
A série Liturgia das Cores volta somente em março, quando o roxo dá lugar a outras cores em apenas em quatro ocasiões e você vai adorar fazer essa viagem colorida aqui conosco, até lá!
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