VER A GLÓRIA DE DEUS
Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM
Por PASCOM . dia em CNBB
Publicado no Jornal O Maringá, 16.03.2025
O tempo quaresmal nos oferece reflexões para transformar a vida. Somos peregrinos de esperança porque desejamos melhorar a nossa conduta e viver com mais intensidade e alegria. Neste segundo Domingo da Quaresma, o convite à conversão nos apresenta Jesus com seus discípulos na montanha onde ele se transfigura, revela o esplendor do Pai (Lc 9,28b-36).
A criatura humana experimenta as mais diversas sensações neste mundo. A alegria dos discípulos, ao serem convidados a subir a montanha, em primeiro momento sentiram-se privilegiados pelo Mestre que os levou para uma experiência mística de vida. Ao mesmo tempo, quando o Pai faz ressoar a voz que manifesta Seu total amor pelo Filho, a fragilidade humana dos discípulos é tomada de medo.
As atitudes vulneráveis dos discípulos revelam a fragilidade humana, imersa no pecado que amedronta e a graça divina que acalenta e encoraja.
A Quaresma é o tempo propício para perceber as fragilidades humanas, dominadas pelo pecado, que devem ser perdoadas, superadas, e aprofundar na beleza da manifestação da bondade do Pai que nos santifica e fortalece no amor. A figura do Pai Criador é cheia de bondade e de ternura. Não se confunde com as figuras mergulhadas no vício, na desarmonia e truculência de tantos homens de hoje.
A conversão deve ser ampla, total. Não podemos esconder situações suspeitas para ingerir na alma a graça do perdão, da conversão. A Deus pertencemos e a Deus devemos as nossas atitudes, comportamentos. Na hora do juízo final, não teremos ninguém junto a nós para nos defender, a relação é direta e exclusiva junto ao Pai das misericórdias, onde manifestamos o nosso amor, a única postura que nos purifica diante de Deus.
Os ensinamentos de Jesus favorecem caminhos seguros e transparentes para alcançarmos a graça do encontro definitivo com o Pai no reino que Ele preparou para todos nós. Somos criaturas, portanto, irmãos e irmãs com toda obra criada. São Francisco de Assis nos estimula a viver com todas as criaturas como irmãs e irmãos.
A nossa relação humana tem raízes geradoras da verdade revelada porque tudo o que foi criado é bom, portanto, não deve ser depredado, intoxicado.
A reflexão sobre o comportamento relacional para com a obra criada, nos conduz para descobrir, através da inteligência, dom inspirado por Deus, para darmos continuidade a obra criada e sejamos guardiães de todo o bem para o louvor de Deus e para a sustentabilidade da vida.
Assim como os discípulos ficaram amedrontados, inseguros no Monte Tabor quando Jesus revela seu messianismo, precisamos nos deixar envolver pelo Criador, ouvir a voz do alto, deixar-nos conduzir pelo Espírito Santo e recuperar a sensação prazerosa de viver. Os discípulos se envolveram por um mistério tão profundo que não perceberam a natureza criada e experimentaram a glória de Deus que Jesus veio anunciar. O Reino de Deus é tangível em parte, porque neste mundo, somos chamados a descobrir os sinais desse Reino anunciado por Jesus.
O mandato do Senhor é explícito: “Convertei-vos e crede no Evangelho”, assim iniciamos o tempo quaresmal para usufruir do esplendor da divina misericórdia que nos integra com tudo o que Deus criou para o bem de toda a humanidade. Enquanto o ser humano, se reconhece participante de toda a obra criada, recebe o título de guardião e não destruidor do paraíso.
Aprofundemos a vida de oração sincera e autêntica, a esmola caridosa e solidária, o jejum espontâneo e honesto, para descobrir com o coração puro e simples o esplendor de Deus neste tempo quaresmal do Ano Jubilar da encarnação de Jesus Cristo.
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