VIVER EM PROFUNDIDADE
Artigo semanal do Arcebispo de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM
Por PASCOM . dia em CNBB
Publicado no Jornal O Maringá, 09.02.2025
O desenvolvimento tecnológico do mundo atual é uma maravilha e deve ser considerado dom de Deus. A capacidade de criar tantas tecnologias, vem do alto, onde Deus, na sua infinita sabedoria ilumina as mentes humanas. É verdade que a tecnologia avança e as relações humanas não se equiparam na convivência familiar e social. Há uma desconexão entre as conquistas da inteligência e a estagnação das relações humanas.
Acreditamos somente nas novas tecnologias e desprezamos a sabedoria de Deus que nos chama, nos envia, nos desafia a construir a paz, a justiça, viver a beleza da experiência do amor que nos une e nos santifica. A decisão do profeta em aclamar “Aqui estou! Envia-me” (Is 6,8) ecoa em nossos corações para nos acordar e equilibrar nas boas relações. Chega de ódio, de mentiras, de falcatruas. É preciso crescer na sensibilidade humana, ter coragem na vida, construir a paz, fruto da justiça.
Vivemos a experiência dos discípulos do Senhor que se lançaram a pescar e não conseguiram pescar peixes a noite toda (Lc 5,1-11). Viver a superficialidade na vida é atrair o fracasso, permanecer com as redes vazias e o rosto carrancudo pelo fracasso na pesca.
Dominamos as coisas materiais e fracassamos na convivência familiar, eclesial e social. Perdemos a confiança no Senhor. Desacreditamos que o Espírito Santo nos encoraja para coisas mais desafiadoras na vida enquanto vivemos na escassez da inteligência por acomodação, desprezamos a inspiração que vem do alto.
O Senhor nos chama para sermos discípulos missionários, isto significa, além da manutenção, da sustentação do lar, devemos ser fortes na fé, acreditarmos que o Senhor ressuscitado está no meio de nós. Ele envia o Espírito Santo para nos encorajar na vida.
Pedro, ao lançar-se aos pés de Jesus, reconhece ser pecador, acredita na ação miraculosa do Mestre e larga as redes para viver em profundidade outra vida. Deixar as coisas do mundo e seguir o Senhor que chama a ser pescador de homens. O mestre encoraja seu discípulo porque é mestre. “Não tenhas medo! De hoje em diante tu serás pescador de homens” (Lc 5,10).
A capacidade da autoavaliação, da autocrítica, é um gesto de coragem que conduz a vida por caminhos mais seguros, mergulhando na profundidade existencial para coisas maiores e mais gratificantes. Quando o ser humano silencia e medita a Palavra de Deus, novas e grandes inspirações surgem e a vida toma novo rumo com sucesso e harmonia. Mas é preciso avançar em águas mais profundas, acreditar no chamado do Senhor, dar tempo na vida para que a dimensão espiritual conduza com equidade as ações, razão da transformação, da conversão, da realização.
O bom discípulo atende ao apelo de trabalhar na evangelização como quem lança as redes ao mar. Se nem sempre vemos lógica nas propostas de Jesus é porque estamos por demais mergulhados em outra lógica: a dos valores do mundo. Ser cristão é reconhecer Jesus como Senhor, aquele que preside o mundo e a história. Ser cristão é aceitar a missão proposta por Jesus de ser pescador de homens. (Comentários litúrgicos, 5º Domingo do Tempo Comum).
Equilibrar a vida na sua essência gera a paz, o amor, a harmonia, exige a superação dos perigos do egoísmo, do sofrimento e do medo, vencendo as forças do mal e conquistar a beleza da felicidade.
O equilíbrio se conquista pelo desprendimento, pela simplicidade, pela humildade, fortalecendo a concórdia entre as criaturas de Deus.
Que o Ano Jubilar da Graça do Senhor nos permita renascer para uma vida autêntica com mais profundidade nas relações humanas e sejamos construtores da paz.
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